Nota do Autor:

Tenho um grande amigo de infância, companheiro dos bons e maus momentos , tive o imenso prazer de transforma-lo em personagem de meus poemas e de minhas estórias, ele é meu acompanhante predileto em pileques inesquecíveis e "papos" memoráveis nos bares do mercado modelo, rio vermelho, feira das sete portas e botecos afins.

Como sempre as aventuras terminam pela madrugada com a tradicional "regulagem" das nossas queridas "patroas".

Ele atende pelo nome de Jorge Luís Sales Costa, o popular "Jorge Lió", antigo morador do largo 2 de julho, suas aventuras são espetaculares e engraçadas.

No próximo ano (2004) estará prestando vestibular para Pedagogia na UNEB e na UFBA, em homenagem ao seu velho amigo, tentando seguir o mesmo caminho deste pseudo escritor, passar o resto dos seus dias dando aulas a interessados em conhecimentos, tentando formar cidadãos e enchendo a paciência dos ouvintes com "papo cabeça".

________________________________________________________________________________________

"A Batalha Naval da Baia de todos os Santos"

Joaquim Celestino Nascimento Filho

Sim minhas senhoras e meus senhores, o titulo acima é a mais pura verdade, lamentavelmente o episódio não foi registrado nos anais de nossa historia soteropolitana e nem nos arquivos da nossa gloriosa Marinha de Guerra, o fato ficou restrito aos antigos moradores do largo "2 de Julho" no centro da cidade onde o personagem central deste fato nasceu e se criou, precisamente na Rua Visconde de Mauá.

O dito cujo atende pelo pomposo nome de Jorge Luiz Sales Costa, o popular "Lió" figura de estatura mediana, magro, fala mansa, cabelos ralos e bigode de "Don Juan", usuário de um óculos de grau, cuja lente esquerda permanece constantemente arranhada, uma pessoa muito educada, porem com um defeito terrível, ao ser aborrecido vira um verdadeiro leão da "Metro".

Na época ele era proprietário de uma catraia de 5 metros, com motor de popa, de cor azul e branca batizada de "Bazú" , que vivia ancorada na praia da preguiça, o nome em questão era uma singela homenagem a uma senhora de idade moradora local pôr quem nutria uma filial admiração.

Pescador e profundo conhecedor das locas de peixes da baia de todos os santos, reconhecia a morada exata dos "tapas", "carapicús", "budião" e "cambubas".

Certa feita, teve que ir a alto mar procurando peixe grande, levou quatro dias desaparecido, colocando familiares e vizinhos em desespero, retornou alardeando que se afastou tanto da costa a ponto de ter vislumbrado o continente Africano.

Sem delongas vamos a nossa histórica batalha:

Manhã de sábado, encontrava-se nosso personagem a deriva a bordo do "Bazú" no meio da baia, entre a ilha de Itaparica e Salvador tentando fisgar "dourados" e "guaricemas", quando de repente surgiu do nada, um gigantesco navio cargueiro de bandeira Grega apitando e solicitando passagem, nosso intrépido marinheiro não arredou pé, achava ele que pôr ser navegador local, o cargueiro é que teria de efetuar a manobra de desvio, novo apito e sinais pôr parte da tripulação para que "Lio" desobstruísse a passagem, nosso marinheiro continuou irredutível e agora com gestos e gritos tentava informar que a permanência do navio naquela rota de colisão seria considerada como uma agressão marítima e o ato de guerra seria respondido a altura.

Amarrou na proa do "Bazú" uma velha bandeira de cartolina da Bahia, resto de uma festividade cívica, colocou na cintura um velho facão "guarani" que tinha mais ferrugem do que aço e ficou aguardando o cargueiro efetuar o desvio.

Ao notar que não seria atendido ele inicia precisamente às 10 horas e 15 minutos a famosa batalha, arremessando a "poita" do velho "Bazú" (um paralelepípedo encontrado na ladeira do taboão pesando aproximadamente uns seis quilos e meio que lhe servia como ancora) contra o casco do navio inimigo que indiferente ao ataque solta um tremendo apitaço e tirando um "fino" forma uma imensa marola que joga nosso guerreiro juntamente com seu barco nas areias da praia da preguiça.

Barco estraçalhado de um lado, motor de popa em cima do velho trapiche e "Lió" enterrado da cintura para cima na areia com uma velha sandália presa na orelha esquerda.

Completamente injuriado Lió limpou a areia do corpo e foi em direção ao cais do porto sem antes passar no mercado modelo e tomar uma cachaça em "intenção" dos inimigos, pagando com um dinheiro molhado que encontrou em um dos bolsos da bermuda.

Na Avenida da França encontrou um "porrete" em uma lata de lixo, experimentou a madeira em um poste dando duas vibrantes "cacetadas", depois tentou entrar pelo portão principal das docas bradando para Deus e o mundo que os tataranetos de Alexandre "O Grande" iria ver com quantos paus se armava uma canoa, iria passar toda a tripulação grega na "madeira".

Os seguranças do porto tentaram impedi-lo porem o "bafafá" estava formado, de nada adiantou o apelo da turma do "deixa disso" formada pelos vendedores e guardadores de carro locais, nosso herói estava irredutível, logo a noticia chegava ao largo "2 de Julho" e os moradores solicitaram ajuda ao inspetor Nogueira antigo policial que trabalha no complexo dos Barris inclusive amigo de infância e vizinho de Lió, famoso pôr apaziguar brigas familiares e afins, de nada adiantando as argumentações de paz do velho amigo.

Quem encerrou a batalha naval foi D.Ivone esposa de Lió, que armada com um rolo de macarrão pegou o valentão pela orelha e o levou para casa pela Avenida Contorno acompanhados pôr grande comitiva de curiosos.

Um dia depois da batalha Walmir Pitta morador da rua do Sodré, contabilista aposentado e nas horas vagas "mecânico naval" tentou consertar o motor de popa do Bazú com a ajuda de um martelo, um abridor de lata e um alicate de cortar unha, retirou do motor um punhado de sargaço, conchas diversas e meia dúzia de siris, deu um banho geral de óleo de luz e o devolveu com uma garantia de 15 minutos de funcionamento, posteriormente Lió vendeu o "abacaxi" para um "Zé Mané" do bairro da Ribeira.

Os restos mortais do "Bazú" foi recolhido pelo caminhão de lixo e levado na época para ser incinerado no antigo forno da Prefeitura Municipal na Avenida San Martin com a presença do combatente Lió, dizem não sei se é verdade, o comentário é dos moradores da Fazenda Grande, quando foi iniciada a cremação, da velha chaminé saiu uma fumaça azul e branca, a cor do "Bazú", que alçando ao infinito misturou-se com as nuvens e o céu anil da nossa querida cidade de Salvador da Bahia de todos os Santos.

Retorna Página Principal - Toque de Luz