Amigos...
Esta crônica foi escrita por uma pai da cidade de Londrina, que perdeu a
filha de 3 anos pro mar, durante as férias ...
E a crônica é uma história verídica...

ENCONTREI UM ANJO NA SALA DE ESPERA DO CABELEIREIRO

por ROBSON LUIZ RAMOS
30/10/1999.

Dia desses eu estava sentado numa sala de espera aguardando a minha vez para
cortar o cabelo, com o Toninho, da Super Quadra Tupã. Estava muito
distraído,
lendo uma daquelas revistas que sempre tem em sala de espera, quando
adentrou
uma menina, linda, magra, muito branquinha e,
aparentemente, de uns sete anos de idade. Ela usava um arco a lhe prender os
cabelos finos e lisos que iam até os ombros, roupas que denunciavam a origem
pobre, mas que também mostravam um cuidado materno especial, pois estavam
muito limpas e cheirosas. Era uma
criança impossível de não ser notada, sorriso aberto, carisma a flor da pele
e trazia numa das mãos um cartão de loteria instantânea, dessas conhecidas
como "raspinha". Já completamente cativado não me preocupei em disfarçar o meu
encanto e fiquei ali torcendo para que ela me dirigisse a palavra. Era como se eu soubesse que
algo especial estava para acontecer.
- O senhor compra pra ajudar? É deis real...
- Reais, disse eu para ver a reação dela.
- É mesmo. Minha mãe sempre me corrige: deis reais. Mas o senhor compra?
A minha vontade era comprar o cartão, mas não queria acabar logo com a
conversa e continuei:
- Depende... Pra ajudar o quê?
- É pra ajudar a gente lá em casa. Meu pai tá desempregado e a minha mãe tá
muito doente. Eu tô vendendo essa raspinha aqui pra poder comprar leite pro
meu irmãozinho. Ele tem dois anos e meio.
A essa altura eu já tinha certeza de que compraria o cartão. Não que me
comovesse além do normal com essa história tão comum do nosso sofrido povo brasileiro.
Era puro encantamento com aquela menina.
- Como é o seu nome?
- Amanda...Nossa! Como o senhor ficou vermelho!
- É que eu tive uma filha que se chamava Amanda... A última lembrança que eu
tenho dela, ela era assim como você... Sabe?
Em todo lugar que eu vou eu sempre encontro uma Amanda.
- Onde tá a sua filha agora?
- Ela morreu num acidente faz algum tempo. Talvez ela esteja "vendendo
cartões" no céu pra ajudar lá em casa...
- O senhor ficou triste, né? Desculpa...
- Não, eu não estou triste. Mas o que é que a sua mãe tem?
- Eu não sei dizer não senhor. Mas o meu pai vive chorando escondido. Ele
bem que tenta disfarçar. Eu também finjo que não noto, mas eu sei que ele tá
chorando. Eu não gosto de ver meu pai chorando... O senhor vai comprar, não
vai? Eu vou contar um segredo: este cartão aqui está premiado, sabia?
- É? Onde você conseguiu este cartão? E como você sabe que ele está
premiado?
- Foi um anjo que desceu lá do céu e me deu ele pra eu vender. Ele disse que
é um cartão premiado.
- Um anjo??
- É! Por quê? O senhor não acredita?
- Acredito sim. Mas se o anjo lhe deu o cartão e disse que é premiado, por
que você o está vendendo? Por que você não raspa ele e fica com o prêmio?
Assim você vai poder ajudar toda a sua família, a sua mãe...
- Mas eu não posso ficar com ele não senhor.
- Por que não?
- O anjo me disse que era pra eu vender por deis real.
- Reais!
- É. Por deis reais. E que não era pra eu raspar ele senão eu estaria sendo
gananciosa. Eu não sei o que quer dizer essa
palavra "gananciosa", o senhor sabe?
- Eu também não sei não. Esse anjo fala muito difícil... Mas eu tenho
certeza que você não é isso não...
- Ele falou que eu tinha de dar a sorte pra alguém que eu encontrasse e que
eu gostasse, e eu gostei do senhor. O senhor compra?
- Como você sabia que era um anjo de verdade?
- Ele tinha duas asas bem grandes e desceu voando lá do céu.
- Como era o nome dele?
- Ele não falou o nome dele não senhor.
- E você não perguntou?
- Se o senhor visse um anjo o senhor ia ficar fazendo pergunta? Eu fiquei
foi mudinha.
- E por que esse anjo apareceu logo pra você?
- É que eu estava rezando pro menino Jesus, pedindo pro meu pai arranjar um
emprego e pedindo pra Ele curar a minha mãe, então o anjo apareceu pra mim.
Ele disse que se eu vendesse esse cartão que ele me deu, por deis real...
- Reais!
- É, reais... Se eu vendesse, Jesus já tinha autorizado ele a curar a minha
mãe e a arranjar um emprego pro meu pai, mas, que se eu ficasse com o cartão
só ia acontecer coisa ruim.
- Então se eu comprar o cartão que o anjo deu pra você, só vai me acontecer
coisa ruim?
- Não. O senhor não entendeu. Eu é que não posso ficar com o cartão. A
pessoa que comprar ele, vai tá sendo boa e vai tá acreditando no anjo. Então, pra
quem comprar, só vai acontecer coisa boa. O senhor vai receber o prêmio e
não
vai mais ser triste.
- Quem disse pra você que eu sou triste?
- O seus olhos e o seu jeito de falar. O senhor parece uma pessoa triste,
sabia?
- Sabia... Tá bom. Eu compro o seu cartão.
Deixando escapar um breve suspiro, Amanda agarrou os dez "real" e, num gesto
que me deixou surpreso e muito feliz, me deu um beijo no rosto. Ela parou na
minha frente e ficou olhando eu guardar o cartão no bolso, com um sorriso
bobo nos meus lábios. Um tanto decepcionada ela
perguntou:
- O senhor não vai raspar pra ver se está mesmo premiado?
- Não. Eu tenho certeza de que está.
- Mas se o senhor não raspar não vai poder receber o prêmio.
- Eu já recebi quando você entrou aqui.
- Eu não entendi o que o senhor quis dizer.
- Mas o seu anjo entendeu, minha filha. O seu anjo entendeu, meu anjo...
Ela foi embora meio que desconfiada, olhou pra trás algumas vezes e eu nunca
mais a vi. Sempre que volto ao Toninho, ou paro na super quadra para alguma
coisa, corro os olhos pelas calçadas. Tenho certeza de que a verei um dia.
Quero saber se sua mãe está melhor e se seu pai já
"arranjou" um emprego.
Quanto ao cartão, eu ainda não me atrevi a raspá-lo e creio que nunca o
farei.
Gosto de acreditar que sou o único homem no mundo que ganhou um cartão de
loteria premiado, dado por um anjo e trazido por outro.
Quanto ao prêmio, penso que não pode haver um mais valioso do que esta
história toda.

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