OS VIRGENS
19 de fevereiro de 2001
Sou virgem e meu signo é Leão. Sou casada e sou virgem, tenho
filhos e sou virgem. Tão virgem quanto você.
Quando falamos em virgindade, logo pensamos em sexo, e a partir do dia que o
experimentamos, o mundo parece perder seu mistério maior. Não somos mais virgens! Que
grande ilusão de maturidade.
Virgindade é um conceito um tanto mais elástico. Somos virgens antes de voltar sozinhos
do colégio pela primeira vez. Somos virgens antes do primeiro gole de vinho. Somos
virgens antes de ver Paris. Somos virgens antes do primeiro salário. E podemos já estar
transando há anos e permanecermos virgens diante de um novo amor.
Por mais que já tenhamos amado e odiado, por mais que tenhamos sido rejeitados,
descartados, seduzidos, conquistados, não há experiência amorosa que se repita, pois
são variadas as nossas paixões e diferentes as nossas etapas, e tudo isso nos torna
novatos.
As dores, também elas, nos pegam despreparadas. A dor de perder um amigo não é a mesma
de perder um carro num assalto, que por sua vez não é a mesma de perder a oportunidade
de se declarar para alguém, que por outro lado difere da dor de perder o emprego. Somos
sempre surpreendidos pelo o que ainda não foi vivido.
Mesmo no sexo, somos virgens diante de um novo cheiro, de um novo beijo, de um fetiche
ainda não realizado. Se ainda não usamos uma lingerie vermelha, se ainda não fizemos
amor dentro do mar, se ainda cultivamos alguns tabus, que espécie de sabe-tudo somos
nós?
Eu ainda sou virgem da neve, que já vi estática em cima das montanhas, mas nunca vi
cair. Sou virgem do Canadá, da Turquia, da Polinésia. Sou virgem de helicóptero, Jack
Daniels, revólver, análise, transa em elevador, LSD, primeira classe, Harley Davidson,
cirurgia, rafting, show do Lenny Kravitz, siso e passeata. A virgindade existencial nos
acompanha até o fim dos nossos dias, especialmente no último, pois somos todos castos
frente à morte, nossa derradeira experiência inédita. Enquanto ela não chega, é bom
aproveitar cada minuto dessa nossa inocência frente ao desconhecido, pois é uma aventura
tão excitante quanto o sexo e não tem idade pra acontecer
Martha Medeiros
Colaboração de Lucy Valença Guedes
