Poucos sabem de mim.
Pouco sabem do lado frio da madrugada fria.
Não.
Não temo o dia claro em que enxergar coisas novas.
Não o temo porque sei que não podes me ferir.
Sou um Cavaleiro do Tempo e já perdi as vestes de dor
Que poderia te dar qualquer chance de me ferir.
Por isso entreguei minha espada de fogo em tuas mãos.
Ainda não percebeste possuí-la.
E quando deres conta desta posse
Pouco poderás fazer também.
Já te avisei em nossas caminhadas pelas florestas de vidro
Que nada posso sofrer.
Nem pelo abandono, nem pela solidão, jamais.
Porque pouco sabes de mim.
Sou teu espelho e tua dúvida
Sou aquela que poderia te dar descanso, pois meus braços te chamam
E tu pareces fugir.
Tu és feito de lágrimas como eu, mas tens uma diferença brutal...
Não sonhas mais com o que perdeste.
Eu sei que te assustou os últimos ventos
E que te cegaram os olhos a cortina de areia que se formou.
Sei também que tu sabes coisas diversas de mim.
Sinto que a espada de fogo que te dei, deixou cicatrizes em tuas mãos,
Dando códigos, senhas de como ler meu íntimo.
Talvez seja por isso que tens me alimentado como a um cão de estimação.
Ainda não enxergaste a águia que dança em minha alma
E nem tão pouco o leão que se aninha em meu coração.
Posso sentir que não pretendes mexer com minha fauna,
Pois chegas como o vento da manhã em minha pele.
Porém, a verdade minha, só eu conheço.
E é por saber dela que me preparo para mais um fim absurdo.
O que pensas saber de mim?
Conheces o cordeiro leal que se deixa até ferir,
Mas não conhece a loba faminta que arde em meu ser
Esperando a hora exata de clamar por amor.
Caminhei sobre desertos de chumbo queimando
Queimei meio corpo e outra meia alma.
E deixei de sentir dor
Porque percebi que um andante do mundo não pode se intimidar.
Já estive em duelos, e fui massacrada até o chão,
Por não poder ir contra a minha natureza de justa.
Amo! Este é o segredo de minha coragem.
Amo com forças claras e magias esquecidas.
Por isso pareço fraca agora.
Fala-me de amor, ás vezes, e eu me confundo.
Fecho os olhos, saio da posição de guarda e
Danço pelo pátio de minhas emoções.
Porém, sou o guardião do coração de cristal
E imortal o sou.
Podes tentar atirar pedras, pois não me quebro
E as espadas não podem me atravessar
E nem me queima o fogo ou o gelo.
Resistirei até a morte,
Pois outras vezes já entreguei minha resistência
E quebrou-se o encanto da alma sangrenta.
Hoje sei que não chegaram nem a tocar
No fino vidro de meu coração.
Assim sendo, desista de me aniquilar
E chegue por outros caminhos até o talismã sagrado.
Outros caminhos existem
E destes caminhos só existem verdades.
Se souberes caminhar por estas trilhas,
Merecerás beber meu vinho na fonte
E se não puderes...
Não o mereces e não o terás!
Acredita nesta força de cristais eternos
A senha é simples...
Tanto mais me quiseres, mais me terás
Do resto, não posso muito te ajudar.
Sou um guardião
Não um anjo de aviso.
Ainda que estou sendo leal e te dando respostas demais.
Por que?
Porque pouco sabes de mim
E menos ainda saberás
Se tentares me iludir.
MAIRA BORTOLOSI
Maio/1991